Isla Kokotero

August 4, 2009

‘La magnolia’, por LUIZA NETO JORGE

Magnolias

    La magnolia 

La exaltación de lo mínimo,

y el magnífico relámpago

del acontecimiento maestro 
me restituyen la forma

mi resplandor. 

Una diminuta cuna me recoge

donde la palabra se elide

en la materia –en la metáfora–

necesaria, y leve, a cada uno

donde se hace eco y resbala. 

La magnolia, 
el sonido que se desarrolla en ella 
cuando es pronunciada, 
es un exaltado aroma 
perdido en la tempestad,
 

un mínimo ente magnífico 
deshojando relámpagos 
sobre mí.

 LUIZA NETO JORGE
(Traducción de PEDRO SERRA)

May 22, 2009

‘La mano en el arado’, por RUY BELO

 

    LA MANO EN EL ARADO

Feliz aquel que administra sabiamente
la tristeza y aprende a repartirla entre los días
Pueden pasar los meses y los años nunca le faltará

Qué triste es envejecer a la puerta
entretejer en las manos un corazón tardío
Qué triste es arriesgar en humanos regresos
el equilibrio azul de las extremas mañanas de verano
a lo largo del mar que nos transborda
en el demorado adiós de nuestra condición
Es triste en el jardín la soledad del sol
verlo desde el rumor y las casas de la ciudad
hasta una vaga promesa de río
y la vida pequeñita que se concede a las uñas
Mas triste es que tengamos que nacer y morir
y que haya árboles al final de la calle

Es triste ir por la vida como aquel
que regresa y entrar con humildad engañados muerte adentro
Es triste en el otoño llegar a la conclusión
de que el verano era la única estación
Pasó el viento solidario y no lo conocimos
y no supimos ir hasta el fondo del verdor
como ríos que saben dónde encontrar el mar
y con qué puentes con qué calles con qué gentes con qué montes convivir
a través de palabras de un agua ya dicha para siempre
Pero lo más triste es recordar los gestos del día siguiente

Triste es comprar castañas después de la corrida
entre el humo y el domingo en la tarde de noviembre
y tener como futuro el asfalto y mucha gente
y detrás la vida sin ninguna infancia
volviendo a ver todo esto un tiempo después
La tarde muere a lo largo de los días
Es muy triste andar entre la ausencia de Dios

Pero, poeta, administra la tristeza con sabiduría

 RUY BELO
(Del libro ‘El problema de la habitación’.
Ediciones sequitur. Madrid, 2009.
Traducción de Luis González Platón.
Presentación de Pedro Serra)

March 11, 2009

Cuatro poetas portuguesas (selección de PEDRO SERRA): LUIZA NETO JORGE, ANA LUISA AMARAL, ADÍLIA LOPES y FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

~ ~ ~
‘O corpo insurrecto

~
LUIZA NETO JORGE


LUIZA NETO JORGE Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas résteas mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

~ ~ ~
 
‘A VERDADE HISTÓRICA’
~
ANA LUISA AMARAL


ANA LUISA AMARALA minha filha partiu uma tigela
na cozinha.
E eu que me apetecia escrever
sobre o evento,
tive que pôr de lado inspiração e lápis,
pegar numa vassoura e varrer
a cozinha.

A cozinha varrida de tigela
ficou diferente da cozinha
de tigela intacta:
local propício a escavação e estudo,
curto mapa arqueológico
num futuro remoto.

Uma tigela de louça branca
com flores,
restos de cereais tratados
em embalagem estanque
espalhadas pelo chão.

Não eram grãos de trigo de Pompeia,
mas eram respeitosos cerais
de qualquer forma.
E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,
mas das Caldas,
daqui a cinco ou dez mil anos
devia ter estatuto admirativo.

Mas a hecatombe
deu-se.
E escorregada de pequeninas mãos,
ficou esquecidas de famas e proveitos,
varrida de vassouras e memórias.

Por mísero e cruel balde de lixo
azul
em plástico moderno
(indestrutível)

~ ~ ~

‘Natura et ars’
 ~
ADÍLIA LOPES


ADÍLIA LOPESUma floresta é um labirinto?
um deserto pode ser rocaille?
a vida é um romance?
o mundo é um palco?
um florete é uma flor?
uma serpentina é uma serpente?

Imagino o fim da Terra assim
todas as casas e todas as ruas
desapareceram
assim como todas as pessoas
graças a um cataclismo
sobreviveram apenas os telefones
as baratas e as listas dos telefones
marcianos nos dias a seguir
tentam interpretar a lista dos telefones
os marcianos não estabelecem uma relação
entre os telefones e a lista dos telefones
mas entre a lista dos telefones e as baratas
e essa relação é plenamente satisfatória

~ ~ ~ 

Sei que o cérebro o coração e o ventre
~
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

 
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃOSei que o cérebro o coração e o ventre
são uma só forma. O mesmo ponto claro
no alcatrão profundo da abóbada.
Que o cérebro murmura
como o estorninho que devora a verdura
que se estende diante dos olhos.

O ventre, esse, pernoita e imita-o
ao som do ritmo do coração
que digere os vegetais túrgidos
a que pude aconchegar os lábios.
Nada mais bascula no tecto
onde um vapor prende os intervalos.

Costelas, harpa da noite, com um som
de osso cristalino em que não toco
senão quando o cadáver se desenvolver
deste corpo ornamentado por flores frescas.
Assim um tronco esvaziado
pelo formigueiro por vezes confunde-se
com o meu cérebro, o coração e o ventre.

O luar eterniza-se como fundo
deste pensamento acerca das formas.
É uma pequena cabeça de formiga,
tão negra que a agradeço aos mestres clássicos
pelo negrume descrito nas cosmogonias.
 

(Selección de PEDRO SERRA)





















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